Acupuntura na Oncologia como foco de interesse para Enfermeiros Acupunturistas

Acupuntura na Oncologia como foco de interesse para Enfermeiros Acupunturistas

O câncer, é o conjunto de aproximadamente 200 doenças diferentes, caracterizado pelo
surgimento de um novo tecido oriundo da perda da capacidade do crescimento celular
organizado e controlado devido uma dada mutação genética.
É a segunda causa de mortes em todo o Brasil, o que a torna um grave problema de saúde
pública, pois causa direta e indiretamente afastamentos, anos de vida perdidos por morte
prematura, anos de vida perdidos por incapacidade e gastos com tratamentos e outros.
Um dos maiores desafios no manejo de pessoas acometidas pelo câncer para a equipe
multidisciplinar é o controle dos sintomas oriundos da própria doença e dos tratamentos
convencionais antiblásticos, como quimioterapia, radioterapia e cirurgia.
O enfermeiro tem, desde sempre, ações chave neste contexto, pois está envolvido em todos os
níveis de atenção assistencial, desde a primária, atuando em ações preventivas e de promoção
à saúde, até a quaternária com intervenções impactantes na reabilitação das pessoas após o
tratamento e na pesquisa, perpassando pelas fases diagnósticas e terapêuticas propriamente
ditos. Ou seja, o enfermeiro é peça central dos cuidados durante o curso da história natural do
câncer.
Como sabemos, o foco principal da enfermagem são as práticas sobre as respostas humanas,
que compreende o diagnóstico, a intervenção e o resultado destas, o que está em completa
consonância com a base filosófica e prática da Medicina Chinesa.
Esta versa sobre o equilíbrio do todo, mente, corpo e espírito, base conceitual amplamente
conhecida na prática da enfermagem, uma vez que não nos compete o diagnóstico e tratamento
das doenças e sim dos sinais e sintomas que por sua vez são o julgamento clínico das respostas
humanas.
A acupuntura, uma das práticas da Medicina Chinesa, é reconhecida oficialmente como
intervenção integrativa para pessoas com câncer pela Organização Mundial de Saúde, Instituto
Nacional do Câncer, National Cancer Institute e American Society of Clinical Oncology, pois ajuda
o corpo a se equilibrar e se fortalecer por si só e oferece ao paciente a melhor chance de superar
ou conviver com o câncer.
Tal contexto guarda uma interessante associação com a população oncológica, haja visto, o nível
profundo de adoecimento. Hoje, sabe-se que as alterações genéticas são um importante fator
associado à oncogênese, e estas estão fortemente atreladas a hábitos de vida ruins, ou seja, os
enfermeiros especialistas podem lançar mão da acupuntura para modular os hábitos maléficos
como tabagismo, alcoolismo, sedentarismo, compulsão alimentar, estresse e estados mentais
tóxicos como ansiedade e depressão.
O estado de imunodeficiência, induzido muitas vezes pelos hábitos de vida, pode explicar a
teoria do desenvolvimento do câncer, já que imunovigilância é um dos aspectos cruciais para o
crescimento de células tumorais. Do ponto de vista da medicina chinesa, há uma
complementariedade à medicina convencional sobre este raciocínio, devido a crença de que as
toxinas genéticas e ambientais contribuem e predispõem ao câncer. No entanto, a medicina
chinesa considera o câncer, como o resultado final de múltiplos desequilíbrios crônicos do corpo
a longo prazo de e causas internas, não um único evento. Esses desequilíbrios podem resultar
na anormalidade ou fraqueza do Jing Renal, invasão por fatores patogênicos externos, exposição
a toxinas ambientais, produtos químicos, drogas, infecções crônicas ou inflamação, fatores
patogênicos (disfunção de múltiplos órgãos) e estresse psicológico. Em resumo, os tumores
propriamente ditos se desenvolvem por uma deficiência de Qi, que eventualmente leva à
deficiência e estagnação do Qi e do Sangue e o desenvolvimento da Umidade, Fleuma e Calor
Tóxico pode ser exógeno ou gerada endogenamente), que forma uma massa ou tumor. Há de
se considerar também quais os meridianos envolvidos no adoecimento e sua relação com a
teoria dos cinco movimentos, teoria de base e fisiologia energética.
Devido à natureza multifatorial do desenvolvimento do câncer, a medicina chinesa afirma que
não pode haver uma cura única para o câncer por esses motivos. Neste sentido a acupuntura
não é forte o suficiente para efetivamente resolver ou controlar o câncer quando usada como
intervenção isolada.
Outro aspecto importante do adoecimento por câncer é o estado da energia correta do
indivíduo. Já dizia o Simple Question “Quando o correto está no interior, o Perverso não pode
atingi-lo e o perverso aflui lá onde há vazio de Correto”.
Esse conceito faz sentido, quanto aos efeitos tóxicos do tratamento antiblástico, uma vez que a
maioria destes não é seletivo às células tumorais. Isso explica as principais toxicidades orgânicas
apresentadas por estes pacientes. O principal efeito que os tratamentos antiblásticos provocam
no organismo é o consumo do Yin geral, devido calor tóxico gerado, em virtude da inflamação
desencadeada nos tecidos. A inflamação é um mecanismo importante na destruição celular
tumoral. Ou seja, é importante que os tratamentos integrativos de escolha não se oponham ao
efeito inflamatório desejado em um determinado período do tratamento convencional.
Um aspecto relevante no manejo de pessoas com câncer é a segurança, palavra de ordem na
medicina ocidental, haja visto a toxicidade inerente. Problemas mielotóxicos são comuns a esta
população, no entanto se apresentam em níveis variados. Por isso, é interessante o
conhecimento da janela de imunossupressão induzida pela quimio e radioterapia, pois as
plaquetas podem cair de forma significativa, colocando a pessoa sob risco de sangramento e
infecção.
Os benefícios da acupuntura em pessoas com câncer vão além dos que estão em tratamento
para cura ou aumento da sobrevida. Em pacientes na fase da finitude, funciona como um
cuidado adicional para acalmar a mente, diminuir a dor, melhorar o sono, aumentar a função
gastrointestinal e a mobilidade física, ou seja, promove um estado mínimo de equilíbrio das
energias, já que yin e yang estão em falência.
Enfermeiros acupunturistas possuem um amplo campo de atuação na oncologia, esta inclusive
tem sido apontada como uma área de especialidade da acupuntura, que requer treinamento
específico. É importante, portanto que enfermeiros acupunturistas e acupunturistas em geral se
apropriem dos princípios básicos da oncologia, para uma prática segura, fundamentada e
acurada.
As pessoas que convivem com o câncer agradecem!

Ana Carolina Lima Ramos Cardoso
Enfermeira Oncologista (INCA/SBEO)
Acupunturista (INCISA-IMAM/WFAS)
Mestre e Doutoranda (UFMG)

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